

Texto por:
Anderson Viera Aranha
Biólogo, Especialista em Prevenção e Controle de Pragas e Mestrando em Vigilância e Controle de Vetores.
Agosto Verde-Claro: conscientização, prevenção e controle das leishmanioses
O agosto Verde-Claro é um período dedicado à conscientização da população sobre a leishmaniose, destacando a importância da prevenção, do diagnóstico precoce, da proteção dos animais, do manejo ambiental e do controle dos insetos vetores.
A campanha também reforça um conceito cada vez mais importante para a saúde pública: a Saúde Única (One Health). Essa abordagem reconhece que a saúde das pessoas, a saúde dos animais e a saúde do meio ambiente estão diretamente interligadas. No caso das leishmanioses, essa relação é muito evidente, pois a transmissão depende da interação entre o parasito, os flebotomíneos vetores, os hospedeiros animais, os seres humanos e as condições ambientais.
A mobilização ganha especial importância porque a Semana Nacional de Controle e Combate à Leishmaniose foi instituída no Brasil pela Lei Federal nº 12.604/2012, sendo realizada anualmente na semana que inclui o dia 10 de agosto.
Por que Agosto Verde-Claro?
A cor verde-clara passou a ser utilizada em campanhas de conscientização sobre a leishmaniose, ampliando durante todo o mês de agosto as ações educativas relacionadas à prevenção e ao combate à doença.
O período é uma oportunidade para chamar a atenção da sociedade para uma enfermidade que não deve ser analisada apenas sob a perspectiva humana ou veterinária, mas de maneira integrada.
Essa é justamente a proposta da Saúde Única: compreender que alterações no ambiente podem favorecer a presença dos vetores, aumentar a exposição dos animais e, consequentemente, modificar o risco de transmissão para as pessoas.
Leishmaniose e Saúde Única
A leishmaniose é um dos exemplos mais claros da importância de uma abordagem baseada em Saúde Única.
Para compreender e prevenir a doença, é necessário considerar simultaneamente quatro componentes:
Pessoas + Animais + Vetores + Meio ambiente.
A ocorrência de flebotomíneos está diretamente relacionada às características ambientais do local. Ambientes sombreados, úmidos e com acúmulo de matéria orgânica podem favorecer a manutenção desses insetos.
Ao mesmo tempo, diferentes animais participam dos ciclos epidemiológicos das leishmanioses onde o cão, por exemplo, possui importante papel epidemiológico como reservatório doméstico.
Além dos cães, diferentes animais silvestres, sinantrópicos e, em determinadas situações, animais domésticos podem estar envolvidos nos complexos ciclos das leishmanioses. Esse papel varia conforme a espécie de Leishmania, o vetor, o hospedeiro e as características epidemiológicas de cada região.
Na Leishmaniose Visceral urbana, o cão possui papel de destaque como principal reservatório doméstico, enquanto animais silvestres, como raposas e marsupiais, podem participar de ciclos silvestres.
Na Leishmaniose Tegumentar, diversas espécies silvestres são reconhecidas como hospedeiros naturais ou potenciais reservatórios, enquanto o papel epidemiológico dos animais domésticos ainda não está completamente esclarecido.
Dessa forma, trabalhar somente um desses componentes dificilmente será suficiente.
A prevenção precisa envolver:
• saúde humana, com informação, diagnóstico precoce e tratamento adequado;
• saúde animal, com acompanhamento médico-veterinário e medidas de proteção dosr
• saúde ambiental, com manejo adequado dos quintais, resíduos e matéria orgânica;
• vigilância e controle dos vetores, reduzindo o contato entre flebotomíneos, pessoas e animais.
O ambiente faz parte da prevenção
Diferentemente de mosquitos como o Aedes aegypti, os flebotomíneos não dependem de recipientes com água parada para completar seu desenvolvimento.
Locais com umidade, sombreamento e presença de matéria orgânica podem favorecer a ocorrência desses insetos.
Por isso, algumas medidas ambientais são importantes:
• manter quintais e terrenos limpos;
• remover folhas, frutos e matéria orgânica em decomposição;
• evitar acúmulo de resíduos;
• manter canis e abrigos de animais higienizados;
• reduzir locais excessivamente úmidos e sombreados;
• realizar a destinação adequada do lixo e dos resíduos orgânicos.
Essas ações demonstram, na prática, como o cuidado com o ambiente também é uma medida de proteção da saúde humana e animal.
Controle dos flebotomíneos também faz parte da Saúde Única
Em áreas de risco ou transmissão, o manejo ambiental pode precisar ser associado a outras medidas de vigilância e controle.
Quando houver indicação técnica e epidemiológica, o controle químico dos flebotomíneos adultos por meio de inseticidas de ação residual pode contribuir para reduzir a população dos vetores e diminuir o contato entre o inseto, os animais e as pessoas.
A avaliação deve considerar o intradomicílio e o peridomicílio, incluindo áreas de permanência dos animais, abrigos, anexos e possíveis locais de repouso dos flebotomíneos.
Quando necessária, essa intervenção deve ser realizada por empresa especializada e devidamente licenciada, com profissionais capacitados, produtos regularizados e estratégias definidas a partir de uma inspeção técnica.
A borrifação, entretanto, não deve ser vista isoladamente como solução. Dentro do conceito de Saúde Única, o controle químico é apenas uma das ferramentas de um programa mais amplo, que deve integrar:
manejo ambiental + vigilância entomológica + proteção animal + saúde humana + controle profissional do vetor.
Prevenção integrada para proteger pessoas, animais e o ambiente
O enfrentamento da leishmaniose demonstra que não existe saúde humana separada da saúde animal e ambiental.
Um quintal com grande quantidade de matéria orgânica pode favorecer os vetores. A presença dos vetores aumenta a exposição dos animais e das pessoas. A circulação do parasito entre hospedeiros e vetores mantém o ciclo de transmissão.
Por isso, interromper esse ciclo exige uma abordagem integrada.
O agosto Verde-Claro é uma oportunidade para ampliar essa conscientização, mas as ações de prevenção precisam ocorrer durante todo o ano.
Prevenir a leishmaniose é colocar a Saúde Única em prática: cuidar das pessoas, proteger os animais, controlar os vetores e manter o ambiente saudável.
Mais do que combater uma doença, estamos promovendo um ambiente mais seguro e equilibrado para todos.
“Em casos de suspeita de leishmaniose em pessoas, procure atendimento médico em uma unidade de saúde. Quando a suspeita envolver cães ou outros animais domésticos, busque a avaliação de um médico-veterinário. E lembre-se: informação, diagnóstico precoce, manejo ambiental e prevenção são fundamentais. Cuidar das pessoas, dos animais e do ambiente é a melhor forma de reduzir os riscos das leishmanioses.”
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Vigilância da Leishmaniose Tegumentar. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Leishmaniose Visceral — Saúde de A a Z. – Leishmaniose Visceral, 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Leishmaniose Visceral — Saúde de A a Z. – Leishmaniose Tegumentar (LT), 2026.
CEARÁ. SESA. Nota Técnica: Controle Químico Residual nas Ações de Vigilância da Doença de Chagas e das Leishmanioses. 2020.
CEARÁ. SESA. Boletim Epidemiológico: Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral. 2022.
CEARÁ. SESA. Boletim Entomológico: Distribuição dos Flebotomíneos no Estado do Ceará. 2021.