

Dia Mundial do Mosquito: por que esse pequeno inseto merece tanta atenção?
Texto por:
Anderson Vieira Aranha
Biólogo, Especialista em Prevenção e Controle de Pragas e Mestrando em Vigilância e Controle de Vetores.
Apesar do seu pequeno tamanho, os mosquitos estão entre os animais de maior importância para a saúde pública mundial. Isso não ocorre pelo inseto em si, mas pela sua capacidade de atuar como vetor de diferentes agentes causadores de doenças, entre elas malária, dengue, Zika, chikungunya e febre amarela.
A dimensão desse problema pode ser observada nos números da malária. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), foram estimados 282 milhões de casos e aproximadamente 610 mil mortes por malária no mundo em 2024.
Por que 20 de agosto é o Dia Mundial do Mosquito?
Todos os anos, em 20 de agosto, é celebrado o Dia Mundial do Mosquito (World Mosquito Day). A escolha da data remete a 20 de agosto de 1897, quando o médico britânico Sir Ronald Ross realizou a descoberta que ajudou a demonstrar o papel das fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles na transmissão da malária.
Mais de um século depois, a data continua sendo uma oportunidade para chamar a atenção da sociedade para a importância da vigilância, prevenção e controle dos mosquitos e das doenças por eles transmitidas.
No Brasil, um dos principais desafios é o Aedes aegypti, principal vetor dos vírus da dengue, chikungunya e Zika. O Ministério da Saúde destaca que o controle do vetor permanece como um dos principais componentes para prevenção e controle dessas arboviroses urbanas.
E qual é o papel das empresas controladoras de pragas?
Para nós, profissionais que atuamos no setor de Prevenção e Controle de Pragas e Vetores, o Dia Mundial do Mosquito também representa uma oportunidade para refletirmos sobre a qualificação dos serviços oferecidos pelo setor privado.
No âmbito da saúde pública, a vigilância entomológica e o manejo integrado de vetores possuem diretrizes técnicas estabelecidas pelo Ministério da Saúde. As Diretrizes Nacionais para Prevenção e Controle das Arboviroses Urbanas reforçam a importância de uma atuação integrada e orientada por informações entomológicas.
No setor privado, entretanto, encontramos uma grande diversidade de ambientes e necessidades.
Os serviços podem estar relacionados a contratos que buscam a segurança e o bem-estar das pessoas, como em residências e condomínios; ao lazer e turismo, como hotéis, clubes e parques; ou a ambientes de grande circulação e convivência, como instituições de ensino, instituições bancárias, empresas, instituições religiosas e outros estabelecimentos.
Também existem demandas mais complexas, envolvendo pátios de veículos, terminais logísticos e portuários, áreas industriais, grandes empreendimentos e ambientes com extensas áreas externas.
Cada situação possui características próprias. Por isso, não existe uma única estratégia de controle capaz de atender adequadamente a todos esses cenários.
O programa começa pelo diagnóstico
Antes de pensar em controle químico ou na instalação de qualquer tecnologia, é necessário compreender qual mosquito está presente, qual a intensidade da ocorrência, onde ele está se desenvolvendo e quais fatores ambientais favorecem sua permanência naquele local.
O primeiro passo, portanto, deve ser a vigilância entomológica.
Existem diferentes armadilhas entomológicas disponíveis para monitoramento de mosquitos adultos, ovos ou outros estágios de desenvolvimento. As próprias ovitrampas, por exemplo, são reconhecidas pelo Ministério da Saúde como instrumentos sensíveis para detecção e monitoramento de Aedes aegypti e Aedes albopictus.
A partir da identificação das espécies e do conhecimento de sua biologia, comportamento e distribuição no ambiente, torna-se possível estabelecer uma estratégia mais adequada, considerando, entre outros aspectos:
Ou seja: primeiro monitoramos e entendemos o problema; depois definimos a estratégia de controle.
Das estratégias convencionais às novas tecnologias
O controle de mosquitos vem passando por importantes avanços tecnológicos.
Além das ações tradicionais de manejo ambiental, controle larvário e controle de adultos, atualmente existem diferentes ferramentas que podem complementar programas de manejo integrado.
Entre elas estão ovitrampas e outros dispositivos de monitoramento, além de tecnologias desenvolvidas para atuar também no controle ou na disseminação de agentes larvicidas.
No campo da saúde pública, outras estratégias inovadoras vêm sendo incorporadas ou avaliadas no Brasil. O Ministério da Saúde inclui entre as tecnologias utilizadas para enfrentamento das arboviroses diferentes ferramentas complementares às ações convencionais.
Um exemplo é o Método Wolbachia, baseado na introdução da bactéria Wolbachia em populações de Aedes aegypti. A presença dessa bactéria reduz a capacidade do mosquito de transmitir vírus como os da dengue, Zika e chikungunya.
Existem ainda estratégias envolvendo a liberação controlada de mosquitos machos com características específicas para redução populacional.
É importante destacar, entretanto, que tecnologias dessa natureza não devem ser tratadas simplesmente como extensões dos serviços convencionais de uma empresa controladora de pragas. Sua utilização deve estar inserida em programas tecnicamente estruturados, respeitando a regulamentação, os órgãos competentes e as autorizações aplicáveis.
Mais tecnologias exigem mais conhecimento
A ampliação das ferramentas disponíveis é extremamente positiva, mas também aumenta a responsabilidade dos profissionais envolvidos.
Ter muitas alternativas não significa que todas devam ser utilizadas simultaneamente ou que sejam adequadas para qualquer ambiente.
Um programa eficiente de prevenção e controle de mosquitos deve ser construído a partir de diagnóstico, vigilância, identificação das espécies, conhecimento da biologia do vetor, manejo ambiental, seleção criteriosa das ferramentas, monitoramento dos resultados e tomada de decisão baseada em evidências.
Nesse cenário, torna-se fundamental que as empresas controladoras de pragas invistam continuamente na capacitação de suas equipes técnicas, operacionais e comerciais.
O profissional precisa compreender não apenas qual solução existe, mas principalmente quando ela é indicada, quais são suas limitações e como integrá-la de maneira adequada a um programa de manejo.
O Dia Mundial do Mosquito, portanto, é mais do que uma data de conscientização da população. Para o nosso setor, deve ser também um convite à atualização técnica e à reflexão sobre a responsabilidade que temos na construção de programas de controle cada vez mais seguros, eficientes, sustentáveis e baseados em evidências.
Porque, diante de um problema tão complexo quanto os mosquitos, controlar não significa simplesmente aplicar um produto: significa conhecer, monitorar, prevenir, intervir e avaliar resultados.